Na maior cidade do país, pesquisa mostra como plataformas mudaram o trabalho sexual
São Paulo tem 11,4 milhões de habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE, e é o maior centro urbano do Brasil. Numa cidade desse tamanho, muitos serviços passaram a ser contratados pela internet, e com o trabalho sexual não foi diferente.
Universidades paulistas vêm estudando esse movimento. A pesquisadora Lorena Caminhas, doutora em ciências sociais pela Unicamp e vinculada ao Departamento de Antropologia da USP, acompanha há anos a migração da atividade para o ambiente digital.

O que a pesquisa encontrou
Em artigo publicado em 2023 na Revista Brasileira de Ciências Sociais, Caminhas analisou o avanço das plataformas digitais nos mercados eróticos brasileiros. O estudo combinou etnografia digital, feita entre 2016 e 2020, com 15 entrevistas em profundidade com trabalhadoras sexuais.
A conclusão central é que as plataformas descentralizam a gestão do trabalho. Segundo o artigo, as próprias profissionais coordenam a elaboração, a divulgação e a venda dos serviços, e respondem individualmente pela rotina de trabalho.
Ao mesmo tempo, as empresas concentram a infraestrutura técnica e financeira. Isso torna as profissionais mais dependentes desses espaços, mas também obriga as plataformas a garantir segurança pessoal e financeira para quem anuncia.
Para a pesquisadora, esse equilíbrio mistura pressões e ganhos. De acordo com o texto, os vetores de pressão sobre o trabalho sexual são acompanhados de vetores de autonomia e segurança.
Um universo maior do que parece
Em entrevista publicada em 2023 pelo Grupo de Estudos de Inovação, Conhecimento e Trabalho, o GEICT, da Unicamp, Caminhas explicou por que esses serviços ganharam espaço. Segundo ela, as plataformas facilitam transações, contatos e a divulgação do trabalho.
Na mesma entrevista, ela afirma que essas plataformas são pouco visíveis para quem não busca esses serviços, o que as deixa à margem de discussões mais amplas.
Trata-se de um mercado que quase nunca aparece nas estatísticas oficiais. Como a atividade é exercida de forma autônoma, boa parte das informações disponíveis vem de pesquisas acadêmicas como essa.
Caminhas também listou os principais desafios da categoria no ambiente digital. Entre eles estão a pouca visibilidade, a suspensão em massa de contas em redes sociais e o preconceito de parte dos usuários.
A metrópole como vitrine
Para quem anuncia em São Paulo, o tamanho da cidade amplia o público e também a disputa por atenção. A organização dos anúncios por município e por região se tornou uma forma prática de lidar com esse volume.
Plataformas de anúncios passaram a reunir os perfis em páginas por cidade, o que facilita a consulta para o público local e para quem está de passagem. O Santtas, plataforma de anúncios de acompanhantes, organiza a oferta da capital paulista neste levantamento por cidade, com páginas separadas para outros municípios do país.
A lógica descrita pela pesquisa aparece nesse formato. A profissional decide como se apresenta e com quem conversa, enquanto a plataforma cuida da estrutura técnica e das regras de segurança.
Profissão reconhecida e segurança digital
A atividade de profissional do sexo consta na Classificação Brasileira de Ocupações, a CBO, desde 2002. O registro tem o código 5198-05 e é mantido pelo Ministério do Trabalho.
Com a migração para a internet, a segurança digital ganhou espaço no debate. Golpistas sem ligação com os anunciantes criam perfis falsos para pedir pagamentos antecipados ou intimidar clientes, e as orientações das plataformas buscam reduzir esse risco.
O guia de segurança do Santtas recomenda não fazer pagamentos sob pressão, bloquear o contato suspeito, guardar as provas e procurar os canais oficiais. Mais informações sobre a plataforma estão em br.santtas.com.
Na avaliação de Caminhas, garantir a participação segura dos profissionais na internet faz parte de um debate mais amplo sobre direitos digitais. Em São Paulo, pelo porte da cidade, essa discussão deve ganhar ainda mais peso nos próximos anos.
